DEPOIMENTO: ROMILZA MEDRADO – UMA VIDA DE LUTA CONTRA O CÂNCER!

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Bem, para falar de quase 27 anos na luta pessoal contra cânceres, dos quais dois, foram de mama, bi lateral, gostaria de compartilhar com vocês, alguns sentimentos, conhecimentos e vivências, porque, também fundei uma entidade que cuida de pacientes com câncer há mais de 40 anos.

Pois bem, quando uma pessoa é acometida de câncer há um grande impacto não só sobre ela, mas também entre os que lhe são próximos, e todos são acometidos de uma espécie de “síndrome do câncer”. Nessa ocasião todos se lembram de alguém saudável e alegre que, após um diagnóstico de câncer, faleceu em meio a muito sofrimento.

O câncer lembra a “morte”, e a “morte” é o fim da vida, ou pelo menos, desta vida, como acreditam os espiritualistas de quase todos os credos. Na verdade, embora seja a “morte” a nossa única certeza, ninguém se sente confortável falando sobre ela e nunca está preparado para enfrentá-la.
O câncer ainda constitui um tabu, sendo esta palavra pronunciada à meia-voz ou através dos mais diversos pseudônimos, como “CA”, “tumor maligno”, ou “aquela doença”, e o paciente é sempre poupado de ouvi-la para que sejam evitados maiores constrangimentos…

Outro detalhe que atormenta a vida de muita gente diz respeito ao fator surpresa. A falta de sintomas iniciais pode acarretar um diagnóstico, quase sempre tardio que muitas vezes inviabiliza a cura, embora saibamos que, diagnóstico precoce e tratamento em tempo real, traz chances de mais de 90% de cura.

O câncer não é apenas uma doença traiçoeira, mas também democrática. Ataca sem preconceito de idade, raça, sexo, religião, classe social, sendo este também um dos seus aspectos mais perversos, principalmente quando atinge crianças e jovens saudáveis.

O fato de saber que os próprios cientistas não têm o controle do câncer contribui para que um dos maiores pesadelos das pessoas seja contrair essa doença agressiva, mutilante, de alto grau de mortalidade e de evolução imprevisível.  O câncer é uma doença tão misteriosa que, paradoxal e diferentemente das outras, tem um grau de agressividade inversamente proporcional à idade de sua vítima. Adultos jovens, devido à ação dos hormônios, são muito mais vulneráveis a complicações e metástases que pessoas idosas, cuja atividade hormonal já se encontra em declínio.
Um prognóstico otimista não afasta a possibilidade de recidivas ou metástases; por outro lado um mau prognóstico não significa uma sentença de morte, constituindo este o grande “mistério” do câncer, para desespero dos médicos e pesquisadores.

Um diagnóstico de câncer faz com que a maioria das pessoas sintam que o mundo mudou e agora aquele que se imaginava “eterno” compreende que sua trajetória tem um fim. E que seu fim não é o fim do mundo. Essa constatação é muito sofrida, principalmente porque o paciente de câncer é estigmatizado, sente-se diferente, é visto com compaixão pelos demais viventes saudáveis, normais e “imortais”.

Para quem não tem conhecimento, ter câncer custa, além de muito sofrimento para alguns, necessidades urgentes de repensar condutas e buscar viabilidades para sobreviver, além de muito dinheiro. Sofrimento físico e psicológico. Incertezas e ameaças. Tratamentos agressivos e na maioria das vezes mutilantes. Medicamentos de uso contínuo e exames caros. Por fim, mas não por último, a ameaça de metástase para o resto da vida.

Não bastasse tudo isso, o paciente tem ainda o pesado encargo de buscar e fazer valer os seus direitos, enfrentando todo tipo de empecilhos, numa verdadeira corrida de obstáculos burocráticos que deixam números absurdos anualmente de pessoas, no meio do caminho.

Com a extensão territorial do nosso país, com grandes áreas desertas de recursos médico-hospitalares, seria negar o direito à vida e a saúde dificultar o deslocamento de pacientes que têm o duplo infortúnio de contrair uma doença grave e ainda por cima residir em regiões pobres e longínquas, onde não lhe seja possível ter acesso a tratamento especializado. Se a situação de um paciente de câncer que vive em grandes centros, cercado dos mais sofisticados tratamentos, com recursos para se deslocar inclusive para o exterior, já é difícil, podemos imaginar como é a situação dos que contam com poucos ou nenhum recurso, morando em localidades pequenas e afastadas, se não lhes for garantida a proteção legal que assegura o direito ao transporte para centros aonde tenham recursos para tratamento. Vale ressaltar que apenas o direito ao transporte não lhe beneficia tanto se não for também assegurado o direito à um endereço digno e adequado, além de cuidados especiais e alimentação extensivas ao acompanhante. Entretanto a realidade é outra. Quando conseguem as passagens, com muito custo, não lhes promovem o apoio de pousada, muito menos alimentação ou um lugar digno.

Diante dessa inesperada sobrecarga que adiciona à sua vida um custo emocional muitas vezes irreversível, o paciente de câncer merece uma proteção especial do Estado e da sociedade. Após fazer verdadeiros “garimpos jurídicos” para conhecer toda a legislação esparsa e pulverizada nos mais diferentes textos legais, encontrei algumas informações significativas, o que não conseguimos, é fazer com que sejam cumpridas em tempo de que o paciente tenha o mínimo de alívio e dignidade antes de morrer.

Face a tudo isto, a missão da entidade que fundei há tantos anos é árdua,  o NASPEC (Núcleo de Assistencial para Pessoas Com Câncer) não é realmente fácil, este texto foi pensado e repensado, não poderia deixar de colocar transparente e claro, uma situação tão séria quanto alarmante e sem apoio, principalmente para os que verdadeiramente necessitam de agilização dos processos burocráticos e tudo mais que possa proporcionar o mínimo a que todo e qualquer cidadão têm direito.

E por fim, acrescento que o paciente de câncer, pelo profundo sofrimento que encerra a sua doença, além de todos os benefícios que sabemos ter direito (e negados), tem também, direito não apenas a uma morte digna, mas sobretudo direito a uma vida digna. Dignidade não só na sua relação com os profissionais da saúde, mas consigo e com a sociedade em geral. Dignidade no exercício de sua cidadania. Para tanto, deveriam os órgãos competentes do governo, nos três níveis, federal, estadual e municipal, tomar as providências necessárias para que lhes fossem propiciadas facilidades, algumas bem simples, que muitas vezes sequer implicam aumento de custos, mas apenas mudança de postura, de cultura e vontade humanitária e política

.O NASPEC busca incessantemente cumprir sua missão frente à tão grande e monstruoso inimigo e os efeitos que ele causa às pessoas e as afastam, impedindo que se juntem a nós e possamos construir um verdadeiro elo de forças e esperanças de modificação do triste cenário apresentado.

Pois bem, diante deste relato, como eu poderia, se possuo fé inabalável, família, amigos, conhecimentos, um plano de saúde e garra para fazer cumprir meus direitos, me acovardar diante de um inimigo que já sabemos que pode ser combatido??? Houve sim, da primeira vez, um momento inicial de parada para pensar o que e como fazer, mas jamais desacreditei na possibilidade de não me sair vencedora, mesmo que meu corpo castigado, nem sempre, durante todos estes anos, responda como gostaria, mas ainda assim, não consegue me impedir de agir em todas as áreas de minhas escolhas e missões de vida!!! Sim, sei que um câncer pode abater e naturalmente complicar mais ainda um paciente, mas é preciso pensar que a luta se inicia pela vontade de descobrir o que o corpo está apresentando e ter forças para alcançar os recursos que impeçam que sua vida seja ameaçada. Não são estas as chances da maioria dos seres humanos que, de recurso, conta somente com o SUS e a má vontade das gestões das unidades de tratamento, bem como dos governantes deste país.

Sou feliz, realizo sonhos e torno minha vida útil para que, todos aqueles que cheguem à nossa entidade, tenham o melhor que nossos esforços promovam para eles.

Romilza Medrado

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